Ana Caeiro Psicologia

Psicoterapia: trabalhar o ontem, o hoje e o amanhã.

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Ana Caeiro

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Quando pensamos em psicoterapia, encaminhamos o nosso balãozinho interno de ideias para “desabafar” ou “falar do passado”. Numa versão menos amigável, algumas pessoas podem ir para o caminho do “muito dinheiro”, “muito tempo”.

Estes dois últimos temas não são o foco deste texto, mas posso dizer-vos duas coisas. Primeiro, o “muito dinheiro” é relativo, pois depende daquilo que a pessoa prioriza (saúde mental ou uns ténis novos?) e os valores associados a estes processos tendem a ser elevados porque não acarretam os 50 minutos da sessão. Na realidade englobam os anos de estudo prévios, mas também os estudos on going: o psicólogo / psicoterapeuta tem de estar sempre atualizado e isto inclui cursos, livros e tempo. Também inclui a supervisão (que é quando apresentamos os nossos casos, medos e temores a um profissional sénior), que é paga, quotas da ordem profissional, seguros, taxas da ERS, para alguns casos rendas (de espaços ou plataformas online), e podia continuar. O “muito tempo” explico mais brevemente: se estivemos 20, 30 ou 40 anos a repetir o mesmo (pensamentos, comportamentos ou emoções que trazem sofrimento e disfuncionalidade), acham que em um mês o vamos deixar de fazer? Ainda assim, creio que o resto do texto irá explicar melhor o porquê destes tempos esticados.

Dentro da psicoterapia, o seu próprio tempo ou, neste caso, a sua cronologia é um lugar vivo. Vem desde os primórdios da antiguidade até ao futuro longínquo e imaginado. Porque tudo o que está lá atrás tem influência na nossa vida, para aquilo que fazemos hoje e queremos para o amanhã. Alterar dinâmicas, padrões, pensamentos, comportamentos ou gerir melhor as nossas emoções requer esta ligação temporal. Assim, o ontem, o hoje e o amanhã encontram-se constantemente neste espaço terapêutico e a dança entre tempos é essencial para que o processo se faça. Vamos agora especificar essas coreografias.

Ontem

Na nossa cultura dizemos que o passado está lá atrás. Já passou, tal como um caminho que foi feito, e continuamos a andar em frente, para o futuro. No entanto, há um povo indígena nos Andes, os Aimarás, que diz que o passado está à frente, porque já foi vivido, então é conhecido e conseguimos “vê-lo”. O futuro, como ainda não aconteceu, está atrás das costas: não o conseguimos ver, está fora do campo de visão. Esta ótica faz sentido pelo significado, mas imaginem caminhar para o futuro de costas? Até faz ainda mais sentido, é assim que parece muitas vezes, não é? Não vemos onde estamos a pôr o pé. Ou, se formos à nossa cultura, pode estar lá atrás, mas estar ainda muito presente nas nossas ruminações…

O passado, mesmo estando no nosso campo de visão, de acordo com os Aimarás, pode ter muitos ângulos mortos e lugares escondidos. As experiências antigas, boas ou más, competem com a nossa biologia e com as nossas raízes para aquilo que somos hoje. As menos boas, que envolvem dor, insegurança, rejeição ou falta de apoio, amor ou amparo, moldam a forma como o nosso corpo e as nossas emoções funcionam.

Estas “menos boas” são feridas ou traumas, e perante estas, nós vamos criar estratégias para não estarmos em contacto com esse sofrimento. E esses mecanismos de defesa são fundamentais, pois permitem-nos sobreviver em termos psico-emocionais. A questão é que são criados de acordo com os recursos que temos na idade em que os começamos a estabelecer. Uma criança com 6 anos não tem tantos recursos como um adulto, mas pode usar o seu comportamento. Imaginem esta possibilidade: a estratégia para ter a atenção dos pais, e assim se sentir mais segura, pode ser o bom comportamento ou, pelo contrário, a rebeldia. Não há ainda capacidade cognitiva para perceber o que está a acontecer e lidar com a dor de outra forma. Esta criança não vai procurar um psicólogo por ela própria, não vai perceber que os pais gritam porque estão frustrados e eles próprios não fizeram terapia.

O problema? Esse surge quando chegamos a adultos e continuamos a ser a pessoa bem comportada (people pleaser) ou a rebelde, que não se encaixa no mundo. E chegámos ao hoje.

Hoje

A psicoterapia acontece no presente. A vida acontece no presente. É aqui que juntamos o que está lá atrás, com o hoje e o amanhã. E é o hoje que te leva à terapia, porque é o momento em que percebemos que não dá mais e que é preciso olhar para dentro.

No hoje, continuamos a usar as estratégias antigas. O sistema nervoso cria um alerta para gatilhos idênticos, embora menos perigosos. Se um conhecido não responde a uma mensagem (continuando no exemplo da criança que não teve atenção), pode surgir ansiedade e questionamento: será que fiz alguma coisa? Não gosta de mim? Se isto é transversal a vários contextos, pervasivo, intenso e traz sofrimento e disfuncionalidade, então o sistema está desatualizado e acha que ainda está lá atrás. Precisamos de o atualizar.

É no momento presente que estes padrões se mostram: ao vivo, em direto e a cores. E na terapia começamos a vê-los melhor, a destrinçá-los para depois os desconstruir. Podem ser vistos na forma como lidamos com conflitos (foges ou atacas?); como reagimos ao stress (vais fazer exercício ou gritas com alguém?); como é a nossa conversa interna connosco (há insulto ou compreensão?); como são as nossas relações (boas, más ou assim-assim?). E também nos detalhes: na forma como falamos, como nos movimentamos ou quais as sensações físicas que temos.

Aqui podemos começar a ter consciência do que se passa connosco e começamos a ter escolha: sou a criança ou o adulto? Experimentamos novas formas de sentir, pensar e agir. E tentamos renovar as estratégias antigas para outras atualizadas, saudáveis e adultas. O presente transforma-se no laboratório da transformação e atualização dos nossos sistemas internos.

Amanhã

Quando pensamos no amanhã na clínica, focamo-nos no “para onde” e no “como”. O futuro está presente na psicoterapia não só porque é para lá que nos dirigimos, mas também como é que queremos lá chegar. Se algo te leva à terapia, é porque queres que o amanhã seja diferente.

Procuram-se novos objetivos para atingir lá à frente, novos espaços internos que queremos criar e imaginamos – realisticamente – futuros que nos pareciam impossíveis. Se calhar imagino que poderei ter relações mais saudáveis, que me sentirei em paz por conseguir colocar limites à família ou que posso confiar mais em mim e nas minhas decisões. Não se trata dos filmes onde criamos cenários, personagens e até o enredo – luzes, ação! É saber onde queremos chegar e fazer o plano para ir até lá.

Este amanhã terapêutico é onde projetamos o que está lá à frente, há espaço para desejar e planear os passos para lá chegar. A mudança não é mágica, acarreta muito esforço, suor e lágrimas. Mas quando mudamos pequenas coisas, de forma consistente, os resultados vão surgir. Como no exemplo que dei: se o adulto começa a reagir de forma diferente aos gatilhos, “sobrevive” ao desconforto de não ser people pleaser, percebe que na realidade consegue suportar o desconforto de não responder logo a uma mensagem ou de querer agradar a todos. Isto levará à mudança no futuro, pois as estratégias deixam de ser necessárias e caducam.

Trabalhar o passado, o presente e o futuro

Se hoje reagimos sem saber porquê, repetimos padrões nas relações que nos trazem sofrimento, não contactamos com as emoções, ou elas são demais e não sabemos porque as sentimos, temos de viajar ao passado. Aqui vamos dar sentido à história, conhecer a ferida, perceber quais foram as estratégias que utilizamos e até que ponto é que tudo isto ficou gravado no nosso sistema nervoso. Reconhecemos o que nos marcou, damos espaço à zanga e à tristeza pelo que foi (e pelo que não foi) e assim, libertamos de forma emocional e corporal o que ficou preso lá atrás. Abrimos o caminho para olhar para estas feridas com segurança e apoio, deixando de ser reféns dessas dores e das estratégias antigas.

Trabalhar o passado na terapia não é ficar na desresponsabilização, no julgamento e no apontar o dedo aos outros (ou principalmente aos pais). É para isso que trabalhamos o presente. Porque é nesse momento temporal que podemos fazer diferente e, aqui, já somos nós os crescidos e temos de ser nós a tomar conta e a responsabilizarmo-nos pelo que vamos fazer com tudo isto e para onde vamos, em direção ao futuro.

Não apagamos o passado, arrumamo-lo. Não controlamos o futuro, planeamos o possível e somos flexíveis para mudanças e obstáculos. Não dissociamos do nosso presente nem andamos dormentes ou meio acelerados a viver um dia de cada vez, mas sim trabalhamos no aqui e no agora. Deixamos de “sobreviver” e a ter reações que não compreendemos e vamos ficando mais conscientes de quem somos para além dessas estratégias.

A psicoterapia apresenta um movimento contínuo no tempo. Queremos olhar para o passado com compreensão e acolhimento, viver o presente de forma consciente e ativa e vislumbrar o futuro possível, planeado e não filmado.

Foto de Djim Loic em Unsplash

 

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