Ah… Verão! Altura de férias para muitos de nós, comuns mortais, após vários meses de esforços, lutas, tarefas infindáveis e alarmes para acordar, para tomar aquele comprimido ou para lembrar de beber água. É o momento de abrandar, seja perto de casa ou mais longe, de carro ou de avião. E depois? Depois vamos estar frescos como uma alface do LIDL, prontos para mais uma nova etapa.
As férias são o passaporte para resolver alguma coisa e levamos na bagagem a expetativa de que ir para um sítio diferente nos vai fazer sentir diferentes. Spoiler alert: o avião não faz reset à forma como a tua vida está. Nem a paragem na estação de serviço de Alcácer do Sal a caminho do Algarve ou o autocarro que te leva à praia mais próxima de casa.
Sais de casa, mas a casa vai contigo
Podes até experienciar a mudança: não tens, de facto, um alarme; não aceleras tanto durante o dia e não tens discussões com aquela pessoa do Department of Unnecessary Approvals que já não podes ver à frente. A questão é que podes te afastar de casa, mas a tua casa interna vai contigo. Esta casa interna é composta por várias partes de ti, as boas e as menos boas. Lá dentro moram os nossos padrões relacionais, os pensamentos automáticos, a forma como reagimos ao stress, ao silêncio ou à proximidade com os outros. Entre tantas outras mil coisas. E muito daquilo que somos quando o trabalho não nos distrai.
As férias diminuem o ruído do dia-a-dia e permitem que haja mais tempo e espaço contigo próprio. Ficas mais exposto a ti, ao que se passa aí dentro. E isto pode ser assustador. Mas existem mais “reencontros”: o casal que em casa “não tem tempo” e nas férias descobre que não tem assunto; a pessoa que finalmente para e fica ansiosa com o silêncio; a irritação que aparece sem razão aparente; o emaranhado de emoções que pusemos de parte enquanto estivemos ocupados; as necessidades dos filhos que também estão de férias contigo… Podia continuar, mas acho que dá para ter uma ideia.
Na bagagem de mão, aquela que está logo ali, podes encontrar o que acontece dentro de ti de forma mais reconhecível. Um exemplo é a hipervigilância. Aqui estás sempre em alerta, mas não sabes bem porquê. Queres descansar, mas o teu corpo teima em ficar tenso, em vigília e à espera de que algo aconteça. Muitas vezes isto vem associado a outro elemento que às vezes também vai de férias connosco: a dificuldade em descansar sem culpa. Aqui a tua mente dá voltas e mais voltas no carrossel, incitando pensamentos que alimentam essa culpa.
De facto, o carrossel do overthinking, vivendo na tua mente o ano inteiro e sem pagar aluguer, também vai contigo de férias: a contabilizar o tempo de férias que te foge das mãos; a exigir que tudo corra bem durante esse período para fazer valer as expetativas; a rever os processos que ficaram no teu portátil e as mensagens do Teams; a repensar as tuas decisões de 2019 ou a rever uma conversa com um amigo sensivelmente na mesma altura.
Isto não tem porque ser mau: é informação
Não é um fracasso quando as férias não correm tão bem ou quando estamos tão cheios de nós mesmos que não conseguimos descansar ou aproveitar. Há uma tendência para ir idealizando as férias à medida que os dias de trabalho avançam e que o cansaço se acumula. Queremos tudo: que corra bem; que valha a pena o dinheiro e/ou tempo investido; que fique uma sensação idílica de termos descansado e recarregado as baterias e que nos sintamos bem a toda a hora. A questão é que há muitas coisas que não controlamos, desde greves no aeroporto, trânsito, falta de estacionamento na praia ou birras dos miúdos.
É importante gerir essas expetativas antes das férias e perspetivar o que não controlamos. Sem esquecer que não controlar não tem de ser sinónimo de descontrolo. Talvez seja interessante tentares fazer o shift para veres estes momentos como uma oportunidade para estares contigo e te conheceres melhor. É a possibilidade de te observares sem a correria habitual. Assim, as férias podem ser um contexto de autoconhecimento, não apenas de entretenimento. Se queres saber mais sobre o tema do overthinking, convido-te a conhecer o meu segundo livro, “Parem o Carrossel!”, aqui.
* Foto de Ethan Robertson em Unsplash


