Ana Caeiro Psicologia

Ghosting: o mistério dos desaparecimentos

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Ana Caeiro

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Uma palavra inglesa para uma dor muito portuguesa

Toda a gente conhece a sensação, mas não havia palavra para ela. Ghosting é quando alguém desaparece da tua vida sem explicação, sem despedida, sem nada. Como se tivesse sido sequestrado por um grupo de narcotraficantes no meio de uma selva sul-americana. Do nada, o silêncio. E o silêncio diz tudo, mas ao mesmo tempo não diz nada.

Este misterioso desvanecimento não é uma pausa, estar ocupado ou ter emigrado para o Burkina Faso. É quando existe uma decisão deliberada de cortar sem comunicar. Pode acontecer em qualquer momento: depois de uma simples conversa inicial, de semanas de comunicação, de um date… Não é a duração do contacto que o define, mas sim o silêncio intencional. Este “intencional” tem muito que se lhe diga, porque pode ser por maldade, certo, mas muitas vezes é por outros motivos, que vamos desvendar mais à frente. Isto não torna a situação menos dolorosa, claro.

Onde acontece e desde quando?

Com as novas tecnologias esta possibilidade explodiu: basta bloquear alguém, deixar de seguir, não responder a uma mensagem. Não estou a imaginar a conseguir fazer este ghosting lá na C+S onde estudei na adolescência. Seria algo como passar pela pessoa e dizer: “olha finge que não me vês”. Estes contactos são cada vez mais virtuais e, da mesma maneira que desligas o telemóvel, desligas uma relação.

Mesmo assim, o ghosting existia antes nesse “fingir que não se vê”, no deixar de falar ou virar a cara. Era, efetivamente, passar pela pessoa e “não te estou a ver, não existes, nha-nha-nha nhanha”. As apps aceleraram o fenómeno e normalizaram-no, mas ele sempre existiu, agora tem é um nome. A questão é que as pessoas já se conheciam frente a frente. Depois de conflitos era (é) certinho: amizades que desvaneciam, famílias com fissuras durante anos. Isto é também muito marcado pela nossa cultura e sociedade. Não se fala do que é difícil, do que sentimos. Não dizemos ao outro do que não gostámos, que estamos tristes ou magoados. Não se pode mostrar vulnerabilidade e a raiva é a única emoção socialmente aceite. É porque somos de sangue quente? É do fado? Eu creio que é porque temos um longo caminho a percorrer em termos de autoconhecimento, regulação e inteligência emocional.

Atualmente nem é preciso chegar aos conflitos: alguém está a conhecer alguém, não gosta, dá ghost (seguinte!). A questão hoje em dia é que, na procura de interesses amorosos, as regras do jogo mudaram. Já não nos conhecemos (só) na escola, no trabalho, na paragem do autocarro ou na fila do pão. A procura diversificou-se, assim como os métodos e a profundidade das relações. É tudo mais liquido, instantâneo e superficial.

O que acontece a quem fica no vácuo

O cérebro humano não tolera bem a ambiguidade e precisa de encerramento. A questão é que procuramos sempre a segurança e para isso precisamos de informação. Nota de rodapé, mas no meio do texto: ao sermos todos diferentes, isto tem diferentes impactos e é gerido de diferentes formas por cada um de nós. Claramente que quem tem um vínculo mais ansioso vai sentir um impacto maior).

Quando não há explicação, a mente preenche o vazio sozinha, quase sempre contra si própria: “o que fiz de errado?”, “não mereço sequer uma explicação?”, “e se lhe aconteceu algo?” O problema do ghosting não é só a perda de contacto sem uma informação específica, é também a impossibilidade de fechar algo que não teve um fim declarado (e será que é preciso fecho? Será a ausência de resposta um fecho?).

O ghosting ativa no cérebro o mesmo circuito de dor que uma rejeição física. Isto não é uma metáfora, é neurociência. Estudos de imagiologia mostram que a exclusão social acende as mesmas zonas cerebrais do que a dor corporal. O corpo regista o silêncio como ameaça. E o ghosting é sentido como uma exclusão. Mas o que torna o ghosting particularmente cruel é a ambiguidade. Numa rutura declarada, mesmo que dolorosa, há um ponto de partida para o luto: acabou. Aqui não há isso, a relação existe e não existe ao mesmo tempo. E o cérebro, que precisa de encerramento para processar a perda, fica preso num loop: será que acabou? será que estou a exagerar? será que ainda vai dar notícias? Esse loop tem um nome em psicologia: ruminação. E alimenta-se sozinho, especialmente à noite, quando o telemóvel fica em silêncio.

A narrativa que a pessoa constrói para preencher o vazio raramente é gentil consigo própria. Raramente pensa “ele/ela não soube comunicar”. O carrossel dos pensamentos liga logo a música para o lado negativo: “não fui suficiente”, “fiz algo de errado e nem sei o quê”, “não mereço sequer uma explicação”. O silêncio do outro é interpretado como veredicto. E um veredicto sem julgamento é impossível de contestar.

Há também uma ferida de dignidade. Seres ignorado/a comunica, sem palavras, que não és merecedor/a de uma conversa. Que o desconforto do outro vale mais do que o teu direito a saber. Isso deixa marca não só nesta relação, mas nas seguintes. A pessoa começa a antecipar o abandono, a desconfiar do silêncio ou a ler sinais onde talvez não haja nenhum. Para quem tem um vínculo ansioso, este tipo de interações vai aprofundar este medo.

A ferida de quem desaparece

Este é o lado que quase nunca se fala. Porque quem faz ghosting é o vilão da história e, supostamente, os vilões não sofrem. Mas sofrem de outra forma, mais silenciosa. É que, quem recorre ao ghosting raramente o faz por frieza (há exceções). Na maioria dos casos faz por incapacidade de tolerar o desconforto do conflito. A conversa difícil parece insuportável: o julgamento do outro, a possibilidade de magoar, a exposição emocional. Desaparecer parece, naquele momento, a saída menos dolorosa para todos. Mas… Não é. É apenas a saída mais imediata.

Quem desaparece pode sentir culpa ou arrependimento, o que faz com que possa existir ruminação no presente. E a questão é que normalmente há uma retroalimentação. Sempre que é necessário ter uma conversa difícil, o “fantasma” evita ou foge. Então nunca se expõe a essa possibilidade e a fuga é alimentada. É um circuito repetido: evito falar à aumenta o desconforto e incapacidade de falar à evito falar.

Pode existir uma perda de integridade que pode ser sentida ou experienciada de forma confusa. Não no sentido moral, mas no sentido simples de coerência entre o que se sente e o que se faz. Desaparecer sem explicação é, quase sempre, uma traição a uma parte de si próprio que sabia que havia uma forma melhor de agir. E depois há o isolamento. Quem evita a confrontação tende a acumular relações inacabadas, conversas por ter, despedidas que nunca aconteceram. Por muito que se vire as costas a estes temas, isto pesa. É que na realidade, o ghosting raramente protege quem o faz, embora seja usado com esse objetivo. Foge-se da conversa, mas não se foge do peso de a ter evitado e fica-se na superfície.

Se te identificas é importante perceberes do que é que o ghosting te está a proteger. Normalmente está relacionado com o estilo de vinculação, podes ler mais sobre isso aqui.

Normalmente, a fuga é a defesa que te permite evitar conflitos e faz com que não tenhas de gerir emoções difíceis, as tuas e as dos outros. Muitas vezes isto é pautado por imaturidade emocional e alimentado por uma cultura que normalizou a descartabilidade das relações (o amor líquido!). Não há uma resposta certa, cada um tem a sua história, experiências, personalidade e vontades. A pergunta a fazer é: o que fazemos com isso?

“Então, mas o ghosting é só almas feridas? Não acho justo!” Pois, é que o ghosting também pode surgir como uma forma de controlo, quando é manipulação. Há casos em que o desaparecimento é estratégico: para punir, para manter poder ou para reaparecer mais tarde com vantagem (o chamado orbiting ou o regresso do “fantasma”). É tema certo nas relações tóxicas (ler mais aqui).

O “fantasma” e o que fica: como lidar?

Para quem fica no vazio, sem uma explicação que pode nunca chegar, o encerramento que não vem de fora tem de ser construído por dentro. O que isso significa na prática: parar de procurar respostas no comportamento do outro, reconhecer o valor próprio independentemente da validação, e perceber que o silêncio do outro diz mais sobre ele do que sobre ti. Eu sei que pode parecer cliché, mas é mesmo verdade. Esse comportamento é do outro, principalmente quando tu não és chamado/a à conversa para se perceberem quotas-partes.

O que ajuda é trabalhar para integrar que a ausência de explicação não é uma resposta sobre o teu valor. É uma resposta sobre a capacidade emocional de quem desapareceu. E isto pode estar presente numa pessoa com quem só trocaste mensagens, com quem saíste em alguns encontros ou até mesmo quando já há uma relação estabelecida. Se fores tu a desaparecer, faço-te um convite a uma reflexão honesta. Porque o fazes? É que a cultura do descarte pode parecer cómoda, mas tem um custo para quem fica, e também para quem foge. Para quem foge o custo de não olhar para isto e tomar consciência é, consequentemente, não trabalhar nas relações. Não mudamos o que não achamos que temos de mudar. A longo prazo contaminam-se possíveis relações saudáveis e não se aprofundam os afetos. Parece porreiro, uma vida de relações “light”, mas nós humanos precisamos de conexão real…

* Foto de Tandem X Visuals em Unsplash

 

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