O ser humano não gosta de sofrer. Não estou a trazer nenhuma novidade. E não é, aliás, apenas o não gostar de sofrer, é o que está por detrás: a sobrevivência. Sofrer significa que podemos estar em perigo e, perante uma ameaça, temos tendência a usar o que podemos para nos colocarmos em segurança. Se há perigo posso ficar ferida, e se fico ferida posso ficar mais debilitada e vulnerável a outros perigos e, eventualmente, morrer.
Como seres complexos que somos, sofisticados, modernos e hipócritas, esquecemo-nos de que, na base, somos animais. E que, sim, continuamos a ter comportamentos mais primitivos que obedecem à fuga da dor e da morte.
Desde há milhares de anos, aquele nosso antepassado que, pelo sim, pelo não, não foi confirmar se no arbusto estava um leão, passou esse “conhecimento” através dos seus genes para nós. Adivinhem o que aconteceu ao que foi lá confirmar e que viu que era mesmo um leão? Este movimento para a sobrevivência não é só nosso, ele é transversal a outros animais. E assim vamos evoluindo e sobrevivendo como podemos.
Até aqui está tudo muito bem. Uma antecipação do perigo q.b. – ou seja, ansiedade – é saudável e permite-nos adotar comportamentos preventivos. Se eu estiver ansiosa porque tenho um exame amanhã, vou estudar um pouco mais. Mas já aqui vemos a complexidade de tudo isto: um exame não é um leão. Mas é algo que pode ser importante para o nosso percurso. Assim sendo, temos de incluir neste zoo de ameaças, outro tipo de “animais”.
Para complicar ainda mais, resolvemos exagerar nos alertas. Isto normalmente acontece por aprendizagem direta – vivemos uma situação traumática que nos deixa hipervigiantes. Ou indireta, quando vemos o que acontece aos outros. Quando estamos com o alarme constantemente ligado, de forma a trazer sofrimento psicológico e emocional e a fazer com que os nossos comportamentos sejam mais disfuncionais e os pensamentos mais negativos, estamos no campo das patologias ou perturbações. Atenção que um diagnóstico nunca será assim tão linear, e precisa de um profissional de saúde para ver a luz do dia.
Este alarme constantemente ligado é equiparado por Randolph M. Nesse, no seu livro “Good reasons for bad feeligs”, a um detetor de fumo. E eu uso esta analogia muitas vezes nas consultas. Se numa sala com um detetor de fumo, há um “fuminho”, mesmo que não seja um fogo ameaçador e perigoso, o alarme dispara. É um caso de “pelo-sim-pelo-não”. O detetor tem de dar sinal que algo tem de ser averiguado, de que pode haver perigo e que se não for logo visto, pode trazer problemas bem graves.
Assim é o nosso cérebro (não vos vou maçar com o papel da amígdala, hipotálamo…): temos um detetor de fumo que dá o alerta. O problema é que, após uma ameaça grande, uma experiência má ou um trauma, o detetor fica mais sensível e dispara ao mínimo “fuminho”, dando falsos alarmes. Os falsos alarmes “normativos” são fundamentais. Eles permitem que tenhamos uma reação de salvaguarda antes mesmo de percebermos a ameaça. Imaginem que veem algo a mexer na sala. Primeiro assustam-se: o batimento cardíaco acelera, podem começar a suar e até mesmo dar um pulo para longe desse sítio. Depois percebem que afinal era a sombra da cortina que mexeu com o vento. Ufa! É um “pelo-sim-pelo-não” normativo: primeiro vem a reação fisiológica, depois entra o raciocínio. Porque primeiro preparamo-nos para fugir ou lutar contra essa ameaça (ou congelar), depois logo se vê se é um bicho ou o vento. O problema é quando isto acontece com demasiada frequência (muitos falsos alarmes), com muita intensidade e quando traz sofrimento e disfuncionalidade, como referi.
Vamos ver um exemplo onde temos a situação de origem (ou trauma), a disfuncionalidade, o sofrimento e onde está o detetor de fumo. Se um dia eu ia-me afogando, tenho o comportamento de evitação de não ir à praia. Pode ser disfuncional se eu trabalhar lá ou se isso implica nunca ver aqueles amigos que sempre se encontram ali. Traz sofrimento, na medida em que pensar na praia alimenta uma grande angústia. E onde está o detetor de fumo? Mal pensa na praia, faz soar os alarmes. Se vê o mar, soam os apitos.
Tudo isto traz muita complexidade, não fossemos nós os humanos. Mas perceber a função de tudo o que nos compõe é um passo para poder transformar estas angustias e tentar afinar mais o detetor de fumo.
Esta ansiedade séria e patológica é mais comum do que tu pensas, e é possível que ao leres isto te identifiques. Se assim for, e se ainda não o fizeste, procura ajuda.
* fotografia de CHUTTERSNAP em unsplash.com


