No passado dia 4 de março, fiz uma live com a minha colega, Juliana Meira, sobre o impacto da saúde mental no casal. O mote era claro: o que é que acontece quando um dos elementos tem algum desafio de saúde mental? Como é que o elemento “saudável” lida com isto? Serão os termos doente vs saudável os mais corretos? Quando recebi este convite percebi que, de facto, não se fala muito sobre este tema, embora surja muito na clínica. E é um tema importante que devemos aprofundar. Principalmente porque alterações na saúde mental têm o potencial de trazer muita disrupção, sofrimento e mudanças na vida de cada elemento, mas também na dinâmica do casal. Vamos então falar deste tema, salvaguardando que existem sempre exceções à regra e que, neste texto, vamos falar sobre o que acontece quando não há um ajuste saudável a estas alterações.
Um sistema é um conjunto organizado de elementos. Este é um conceito aplicado às famílias e aos casais: existem elementos e existem dinâmicas, trocas, padrões, e outras transações. Quando algo muda, o sistema tem de se ajustar. Esta mudança pode ser uma perda, uma separação, um nascimento ou uma dificuldade económica, entre tantas outras. Claramente que, um diagnóstico ou um desafio relacionado com a saúde mental, vai influenciar o sistema do casal.
O que acontece no casal?
As alterações que podemos identificar são várias. Por um lado, pode existir uma mudança na comunicação. Tanto um elemento como o outro podem ficar mais silenciosos, evitativos, reativos ou facilmente irritáveis. É facto que o substrato emocional, nestes casos, é diretamente afetado e a possibilidade de não se conseguirem gerir e regular as emoções, paira no ar. Muitas vezes, quando alguém não se consegue regular a nível emocional (mais uma vez, tanto um elemento, como o outro), tende a afastar-se, deixando um vazio, ou a dirigir essas emoções para quem está mais próximo. Isto tem um impacto na intimidade emocional, e, se houver uma grande imprevisibilidade na resposta emocional, traz desgaste relacional.
Os papéis do casal também mudam, principalmente se houver um movimento no sistema onde um se assume como o/a “cuidador/a” e o/a outro/a, o/a dependente. A vida sexual pode ficar afetada, não só por alterações no desejo de cada um deles, como por outros motivos, como a toma de medicações ou pelo afastamento ou evitamento. Poderão existir também mudanças nos contextos sociais e na relação com a restante família.
Muitas vezes podem surgir novos movimentos que são disfuncionais. Por exemplo, enquanto um tenta “salvar”, o outro pode se sentir incapaz, numa perspetiva de infantilização. Se o elemento “saudável” se anula, maior poderá ser o ressentimento. E quanto mais espaço a perturbação ocupa, menos espaço existe para o casal e para outros movimentos. Se se instalar o ciclo cuidador-dependente, perde-se o equilíbrio de papéis no casal e a possibilidade de se verem de igual para igual.
Ao que é que devemos estar atentos?
Em situações mais graves ou complexas, existem alguns sinais de alerta aos quais devemos estar atentos e que nos devem levar diretamente à ajuda de profissionais de saúde. Um deles é quando o mundo emocional de um ou de ambos é tão desregulado, imprevisível e intenso que pode trazer destruição. E aqui é destruição dos sentimentos, da autoestima ou de estabilidade psicológica. A codependência é também um alerta, assim como, obviamente, qualquer tipo de violência (verbal, psicológica, física…). E nestes casos nunca é demais repetir: peçam ajuda.
E quem é que sofre?
Sejamos claros: nestes casos a probabilidade de o sofrimento estar presente nos dois elementos é elevada. Independentemente da perturbação, quando tem um grau de sofrimento e disfuncionalidade elevado, vai trazer sofrimento para quem tem o diagnóstico e para quem faz parte do mesmo sistema. Quem apoia assume muitas vezes um lado invisível e fica numa dor silenciosa. Pode até sentir culpa de sentir essa dor e encontrar estratégias para a esconder. É natural sentir o cansaço e a irritação, a frustração ou a perda de esperança, assim como a solidão. O problema é que muitas vezes vem a culpa pelo que sente. Entramos num circuito fechado: lido com a dificuldade; fico cansado/a / triste / irritado/a / sozinho/a; sinto culpa por me sentir assim; então lido com a dificuldade da mesma forma, e assim sucessivamente.
O/A “cuidador/a” pode se restringir ou limitar muito não só no que sente, mas nas suas ações. Para além da sobrecarga emocional, abre-se espaço para a sobrecarga prática, no “levar a vida”. Há uma tendência para limitar o que se diz ou o que se faz para não influenciar negativamente o outro. E tudo isto com uma base: o luto da relação que foi e que está a ajustar-se para uma nova realidade.
Quem tem a perturbação ou o desafio psico-emocional, para além de ter de lidar com este tema individualmente, no casal, pode sentir culpa por dar trabalho ou sentir-se um peso. É fácil passar disso para um medo do abandono, enquanto se lida com a mudança do seu papel na relação, principalmente se houver perda de autonomia ou da sensação de valor. As implicações emocionais são grandes e pode surgir muita frustração e tristeza.
Não nos esqueçamos que a saúde mental ainda é um parente pobre da saúde no geral e, por isso, ainda é incompreendida, traz vergonha, retraimento, solidão, entre muitas outras consequências. E isto é de um impacto brutal para ambos os elementos.
E agora, o que fazemos disto tudo?
Sei que até aqui parece que estou a pintar um quadro muito sombrio. Lembrem-se sempre que cada caso é um caso e que, quando as pessoas encontram, no seu tempo e em si próprias, a vontade de olhar para os desafios psico-emocionais, as mudanças podem começar a acontecer. Não é um passeio pelo parque, mas é uma necessidade e um caminho. A base essencial para mudar estes ciclos ou padrões é a comunicação. Para tudo isto a comunicação no casal tem de estar bem afinada: tem de ser clara, assertiva, respeitosa e gentil.
De seguida, e com grande importância, desmistificar algo que serve para este tema, como para todos na nossa vida (e leiam e repitam em voz alta três vezes): colocar limites não é falta de amor. Há uma diferença entre apoiar e ficar sobrecarregado. E aquela ideia de que amar é aguentar tudo, é um mito. Limites saudáveis protegem a própria pessoa, mas também a relação e cimentam os papéis e cada um de forma saudável.
Uma ferramenta essencial (para tudo) é o conhecimento. Saber mais sobre o desafio que cada um está a sentir, procurar informações. Imaginem alguém com uma ansiedade debilitante. Dizer “tem calma” não funciona como frase mágica que interrompe o que outro sente. É preciso compreender que estes são processos complexos, que limitam a pessoa, que são automáticos e muitas vezes muito corporais.
Colocarem-se os dois do mesmo lado da barricada é essencial, na procura de um espírito de equipa, onde se fomenta a união e se desenvolvem estratégias partilhadas para fazer face ao problema. É também importante manter o espaço individual de cada um, fomentar uma boa rede de apoio fora da relação e não ter receio de pedir ajuda. Claro que nem sempre isto é possível, as realidades de todos nós são distintas. E com ou sem esse recurso, a psicoterapia é fundamental, seja a individual como, se necessário, de casal.
Algo muito importante e que deve estar presente na comunicação do casal, mas também na perceção interna de cada um é a separação da pessoa da perturbação. Chama-se a isto “destotalizar”: a pessoa tem um desafio, não é esse desafio. A identificação com a perturbação ou dificuldade faz com que a pessoa se afogue nela. Assumir que é “apenas” uma parte de si que está a cuidar, muda a perspetiva e abre espaço para o resto.
No meio de tudo isto, é importante reencontrar a relação. E isto passa pela recuperação da identidade do casal, manter o afeto e alimentar uma esperança conjunta, não entrando na negação. Perceber igualmente que ninguém é, necessariamente, o vilão. Há ma dor que pode e deve ser falada e partilhada e ambos os elementos estão a fazer o possível para sobreviver psicoemocionalmente. Claramente que o amor faz parte do suporte e é fundamental, mas muitas vezes pode não ser suficiente nem um antídoto para a perturbação ou desafio.
Para finalizar, sublinhar que cuidar do outro não tem de implicar deixar de existir e que pedir ajuda é um ato de responsabilidade e cuidado, não de fracasso. Se se identificaram com alguns destes temas, não deixem de procurar apoio profissional.
Foto de Priscilla Du Preez em Unsplash


