Nos últimos tempos têm surgido (ou ressurgido) muitas práticas de autocuidado e auto-melhoramento. Desde a meditação, aos alimentos que consumimos, ao exercício, à leitura de livros de auto-ajuda ou bem-estar. E que bom! Todas estas ferramentas foram surgindo enquanto acompanharam uma maior necessidade de olharmos para nós. Embora este caminho de uma sociedade comunitária para uma mais individualista pesa muito para o negativo, há algo bom a par e passo: estamos mais atentos às nossas necessidades.
Se na geração dos nossos pais e avós as necessidades básicas eram as mais importantes, precisamente porque eram difíceis de cumprir pelos estratos mais baixos da sociedade (e eram estratos bem povoados), nas gerações mais recentes e com uma maior facilidade em cumprir com estas carências, voltámo-nos para outras. E aqui nasce o espaço para olharmos para o nosso interior: psique, emoção e corpo. E que bom, pena o que se perdeu, entretanto, pelo caminho.
O paradoxo do crescimento pessoal sem transformação
Como tudo tem um “mas”, o deste tema prende-se com a diferença entre práticas de bem-estar e o trabalho real de transformação. E de como este movimento de autocuidado serviu um propósito mais negativo de servir um egoísmo encapotado. Um autocuidado profundo conectado diz-nos que devemos de cuidar de nós para podermos cuidar do outro. É muitas vezes usada a analogia com as máscaras de um avião: primeiro colocamos a nós e depois aos outros que não o conseguem fazer. E porquê? Porque o tempo de a colocarmos ao outro, é o tempo de ficarmos inconscientes e, entretanto, estamos todos desmaiados. Quem se aproveita disto diz: “ah, tenho de cuidar de mim, pôr a máscara.” Mas esquece-se da segunda parte: o outro. Quando isto é saudável, nós cuidamos de nós, da nossa saúde mental e física, e depois podemos estar disponíveis para ajudar o outro.
Muitas vezes as pessoas acedem a estes cuidados (e bem!), mas não olham para a forma como se relacionam com os outros e com o mundo. Ficam na sua bolha. Então, ferramentas como a meditação, o journaling, etc. podem tornar-se escudos em vez de ferramentas. Servem para a pessoa se individualizar e não para aprofundar as suas feridas e mudar automatismos antigos que perpetuam os mesmos pensamentos, comportamentos e estados emocionais.
Espiritualidade bypass / Spiritual bypassing
Já ouviste falar da espiritualidade bypass? Este é um lugar onde as pessoas usam práticas espirituais ou de desenvolvimento pessoal para contornar o que dói e foi cunhado por um psicólogo, o John Welwood e faz muito sentido para o que te trago aqui. Nestes casos, há uma aparência de quem “trabalha em si” vs. a realidade nos momentos de conflito. É usar a espiritualidade como uma forma de fuga ou desresponsabilização em vez de ser um caminho de integração.
Nestes casos, as pessoas vão fazendo os seus rituais para não contactar com vulnerabilidades ou traumas, repetem muitas ideias de como tudo acontece por uma razão, focam-se só no positivo e ignoram as emoções difíceis e evitam conflitos por e colocarem muito “acima” disso e de forma despegada. E aqui o problema não é a espiritualidade em si, mas a sua função: proteger a pessoa de algo que precisa de ser visto, aprofundado e transformado. É que o teste real é quando não é quando está tudo bem — é quando algo falha, alguém dececiona, ou se sentimos injustiça.
Uma espiritualidade saudável, que permite aprofundar e fazer o nosso processo de melhoramento é importante, mas o diabo está sempre nos desequilíbrios.
Da mesma forma como temos esta organização para a espiritualidade, podemos fazer o mesmo para a autoajuda ou autocuidado que é feito superficialmente e como evitamento do mergulho interno para aquilo que doi. Nestes casos não serão rituais ou comportamentos relacionados com a espiritualidade, mas com o autocuidado.
O corpo não mente
Se este cuidado é superficial e fica pela rama, então não vai à raiz, não vai ao corpo. Fica algo cognitivo e até, quem sabe, mecânico: às 6h acordo e medito, às 7h faço as práticas de ioga, às 8h bebo o batido proteico, às 9h preparo o almoço saudável para levar. Nada contra mais uma vez. O problema é quando só ficamos nisto e não aprofundamos a vários níveis.
E o corpo é um desses níveis que precisa de ser ouvido e trabalhado, de fora para dentro, mas também de dentro para fora. É que a regulação emocional não se aprende com a cabeça, aprende-se com o sistema nervoso. Sim, é tudo corpo e está tudo lá, mas se só focares na mente não vais incluir tudo o que te compõe e tem de ser trabalhado.
Ler sobre trauma não resolve o trauma. Aliás, mesmo em intervenções psicoterapêuticas tem se defendido que, sem mergulharmos no sistema nervoso não trabalhamos profundamente o trauma. Ler sobre ansiedade não resolve a ansiedade. Fazer 3 workshops num ano sobre o burnout não te vai impedir de lá chegar. É o que depois fazes com isso.
Esta é a diferença entre compreender e integrar. Sim, precisamos de começar por compreender, temos de fazer diferente e promover esse autocuidado, mas temos depois de fazer algo com isso, que não seja só postar a foto do livro ou da prática do ioga nas redes sociais ou colocar no goodreads todas as nossas leituras interessantíssimas.
A ilusão do self-work sem relação
E a questão é que, estes rituais de autocuidado são teus. São importantes, claro que sim, não me vou cansar de o repetir ao longo deste texto para que fique bem assente. Mas transformação acontece em relação, não em isolamento. Não acontece quando pões a máscara e ficas ali com o teu oxigénio. O journaling não te confronta, não te incomoda, não te devolve nada. Um livro não te vai dar umas farpas para pensar. Uma visão apenas positiva sem dar espaço ao menos bom não te vai abanar a estrutura.
Por isso andamos tão individualistas: os outros são espelhos! E creio realmente que a perda de comunidade que temos tido com o crescimento do individualismo, sublinhada pelo materialismo e fomentada pelas novas tecnologias, tem sido a grande ferida da humanidade e é esta que temos de cuidar com muita urgência.
Um amigo que põe o dedo na ferida (de forma saudável e não destrutiva), traz outras visões. A terapia coloca um outro — o terapeuta — no processo, e isso muda tudo. Elementos familiares mais velhos e experientes transmitem a sua sabedoria.
O que a psicoterapia faz que o resto não faz
E a psicoterapia pode ser uma forma de aprofundar. É aqui que podemos ir ao sítio que dói. Quando entramos realmente nestes processos, não ficamos na superfície confortável. Se fosse um passeio pelo parque ficávamos na esplanada a conversar com os amigos. Neste lugar o objetivo é passar por vários sítios, incluindo especialmente os que nos deixam desconfortáveis.
Aqui trabalhamos com a resistência, não a contornamos. Ela é procurada na sessão, posta em cima na mesa. Com calma e gentileza, não pensem que também é tudo direto e à descarada. A resistência na psicoterapia acontece quando evitamos aprofundar. Serve como uma defesa porque não queremos entrar em contacto com o que dói e nos desconforta. Este travão que é colocado tem várias formas: pode ser chegar tarde à sessão, adiar, mudar de assunto, racionalizar, abandonar o processo… O papel do profissional é tentar desconstruir isto com delicadeza, à velocidade possível para não ser demasiado, mas também não ficar no travão: pois isso é a esplanada com os amigos.
Mas atenção: a resistência é ouro como informação clínica, como saberão os meus colegas. Fala de padrões relacionais, medos, onde a ferida e o desconforto moram e onde a mudança é difícil. A questão é que o desconforto, por mais natural que seja evitá-lo – não queremos tocar onde dói – é o sinal de que algo real está a acontecer, no processo psicoterapêutico.
O conflito como revelador
Os momentos de tensão podem te dar muita informação. A forma como reages quando és ativado diz mais sobre ti do que qualquer insight de meditação. Fala-te da tua ferida. Dá-te a ponta do fio que podes ir puxando e desembaraçando os nós para fazer o novelo. Dá-te o pensamento, emoção e comportamento que tens perante essa situação. Qual o encadeamento da tua reação, o que é que espoleta o quê. Conheces-te melhor. E não é falhar — é informação.
Uma nota sem julgamento
Terminar sublinhando que isto não é sobre criticar quem faz essas práticas. Façam-nas. Tudo o que é saudável que vos completa, faz sentir bem e ajuda, vamos a isso. Ou até mesmo aquilo que vos distrai da dor por um momento. Não temos nem devemos estar a meter o dedo na ferida a toda a hora e fazer um movimento pendular entre o contacto e a distração é importante. Tudo com equilíbrio.
É sobre não confundir estas práticas com transformação profunda, quando falta esse lado de escavar e processar efetivamente as nossas dores. Isto pode e deve coexistir — mas com honestidade.
* foto em Unsplah de Matt Seymour


